Qual é a imagem da ciência no mundo atual? Positiva ou negativa? De indiferença ou de fascínio?

Se, de um lado, verifica-se uma indiferença a assuntos que dizem respeito às ciências, de outro, constata-se um fascínio de tal magnitude que chega a atingir o deslumbramento. O homem comum parece ser alheio aos modos de produção da ciência, mas vê com bons olhos os seus produtos: o celular, as conquistas médicas que nos fazem parecer mais jovens e prolongam nossa vida, as viagens mais rápidas, o conforto propiciado pelos alimentos e vestuários mais adequados, para citar apenas alguns exemplos. Ver com bons olhos os produtos da ciência não é uma atitude condenável em si mesma.

Ser alheio aos modos de produção da ciência significa ignorar como ela funciona e, portanto, suas limitações e suas outras possibilidades. Ignorar isso, por sua vez, implica o deixar-se conduzir por ela, ou por aqueles que a conduzem. Essa ignorância, aliada à atitude de fascínio diante de seus produtos, torna o homem um mero consumidor da ciência e, portanto, seu escravo. A essa dupla atitude do homem diante da ciência que ele próprio criou – ignorar como funciona e apenas consumir o que produz – poderíamos chamar de cienciolatria.

A cienciolatria é muito praticada entre os homens comuns, mas também o é entre os próprios cientistas, quando estes ignoram os contextos determinadores de sua produção e, ao mesmo tempo, deslumbram-se diante do que foi produzido. Assim, eles também são escravos da ciência.

Divulgar a ciência implica escolher entre as condições que propiciam a cienciolatria ou as condições que possibilitam romper com esta, o que inclui, primordialmente, uma atitude de questionamento constante sobre os limites da ciência. Em última instância, isso significa instaurar a possibilidade da dúvida. E, para concluir com a mesma inspiração em Flusser, justificamos: “A ingenuidade e inocência do espírito se dissolvem no ácido corrosivo da dúvida.”